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A Rede Globo manipula informações e notícias com o interesse de influenciar a opinião pública. Teoria da conspiração? Não, fatos reais apresentados em "Muito Além do Cidadão Kane", documentário de Simon Hartog, exibido em 1993 na emissora britânica "Channel Four", apesar das fracassadas tentativas da Rede Globo vetar a transmissão. Essa foi a primeira e única vez que o documentário foi exibido legalmente. Hoje, é proibida sua exibição, transmissão e distribuição. Não seria a proibição uma assinatura de sentença de culpa pela Rede Globo?

O título "Muito Além do Cidadão Kane" é uma forma de comparar Roberto Marinho com William Randolph Hearst, todo poderoso das comunicações nos EUA, que chegou a ser dono de 28 jornais, em seu auge. William teve sua vida dramatizada no filme de Orson Welles, "Cidadão Kane", de 1941.

Na verdade, a primeira frase deste texto não passa de um eufemismo. Segundo os depoimentos apresentados no documentário – Brizola, Chico Buarque, Dias Gomes, Lula (ainda demonstrando seu finado estilo revolucionário), Washington Olivetto, entre outros –, a Rede Globo apoiou a ditadura militar, tentou fraudar as eleições de 1982 para governador do Rio de Janeiro (com o intuito de impedir a eleição de Brizola), noticiou falsamente que o movimento das “Diretas Já” foi um comício de comemoração pelo aniversário de São Paulo, editou o debate do segundo turno das eleições presidenciais de 1989 para favorecer Fernando Collor, entre outros absurdos.

Estes eventos demonstram que, num sistema capitalista, os veículos de comunicação deixam de ser prestadores de serviço, cuja matéria-prima é a informação de interesse público, para serem a voz da classe dominante e de seus interesses particulares. A ética é deixada totalmente de lado, quando a manipulação da informação é usada como fonte de domínio.

Cito Muniz Sodré como forma de corroborar esta teoria. Em seu texto "Cultura e Cultura de Massa", ele afirma que “os veículos – no caso, a televisão e a imprensa – dependem hoje quase inteiramente da publicidade, que não é um mecenas desinteressado”. Ainda segundo Sodré, “as intenções do sistema comunicador são definidas pela publicidade, pelas ideologias predominantes, pelos interesses das empresas de comunicação etc”.

Quando falamos em publicidade, lembramos de consumo. Sodré diz que “a nossa cultura de massa (o jornal, a revista, o filme, o disco, o rádio, a televisão) – estreitamente dependente dos grupos econômicos e dos interesses industriais – não deixaria de refletir a política de consumo desenfreado”.

Cabe aqui ressaltar a diferença entre publicidade e propaganda: enquanto a primeira vende produtos, a segunda, geralmente de forma velada, impõe ideologias. Vivemos no país do eterno desenvolvimento, que parece nunca se concretizar. Poucos continuam com muito, enquanto muitos continuam com pouco. Sei que esta frase já caiu no lugar comum há anos, mas é atual e transmite uma triste realidade social. A ideologia do consumo é imposta pela propaganda e facilitada pelo crédito. A população de baixa renda, com o crédito, tem acesso a diversos produtos, muitos deles supérfluos. Mas essas pessoas não consomem apenas pela facilidade do crédito, e sim – principalmente –, pela propaganda. Elas se sentem na necessidade de ter determinados produtos ou de usufruir determinados serviços. “Seja feliz. Compre isso. Seja visto como ‘alguém’ por seus amigos. Tenha aquilo”...

Sodré afirma: “Exageradamente comercializados (especialmente a televisão e o rádio), os veículos de massa levam a cabo a sua tarefa de estimulação do consumo”.

Esta política de consumo torna as pessoas superficiais. As relações pessoais ficam cada vez mais descartáveis. Parece que as relações com produtos são mais importantes do que com pessoas. Até casamento tem data de validade: “Não vai durar mais que 2 anos o casamento de Adelaide com Furtado”...

Até status passa a ter data de validade (além da “necessidade” de consumo): “Fulano é importante porque tem o carro do ano”, diz o pai de Joãozinho. Joãozinho vai tomar aquilo como objetivo da sua vida. Ele deve ter sempre o carro do ano para ser uma pessoa importante. Se não tiver, será apenas mais um “Zé Ninguém”.

Mas o mais impressionante é como os veículos de comunicação conseguem o efeito de “hipnotizar” uma legião de pessoas. Elas passam a não ter vontade própria, a serem robôs que desejam apenas aquilo que querem que elas desejem (com algumas exceções, é claro)...

Muitas pessoas acreditam que a base do sistema educacional está ligada a isso. Por um lado, elas estão certas. Não somos estimulados a desenvolver opiniões próprias. Apenas a assimilar pensamentos pré-definidos e escolhidos a dedo. Eu estudei o ensino fundamental em uma escola católica. Sempre tirava nota 10 em Religião. Mas, com o tempo, passei a me perguntar se eu tirava 10 porque respondia tudo certo ou porque respondia o que eles queriam que eu respondesse. Isso pode ser aplicado a outras disciplinas também. Mas, por outro lado, é muito mais cômodo assimilar apenas o que é recebido e não questionar...

A cultura de massa também contribui como agravante da alienação da sociedade brasileira. É de fácil assimilação e raramente apresenta conteúdo que estimule a reflexão. Serve apenas como lazer escapista. A grande mídia (a Rede Globo em particular) nos bombardeia com estes produtos alienantes. Não censuro a busca pelo lazer. Ele é extremamente necessário e tem utilidade: pode ser usado como forma de esquecer os problemas e recarregar as energias. Sendo a única válvula de escape de grande parte da população, esse lazer escapista até justifica o fato de vivermos num país dito democrático, onde nossos “cidadãos” não sabem exercer sua cidadania. Eles não têm as ferramentas intelectuais para tal. Mas o pior é que eles não percebem isso.

A arte é uma grande alternativa a este quadro de imposições de produtos. A TV Globo já chegou a ter mais de 90% de audiência no Brasil. Hoje temos muitas outras opções – principalmente com o advento da internet. A arte é uma forma de “abrir a cabeça” e fornece poderosas ferramentas de reflexão. Embora eu acredite que a diferença entre arte e produto esteja diminuindo cada vez mais, visto que a arte também está virando um comércio, sendo absorvida cada vez mais pela indústria cultural. Quando a arte se transforma em produto, passa por um empobrecimento intelectual. Isso é fato. Mas se torna mais acessível à população e acaba por fazer parte da cultura de massa. Um exemplo: adaptações literárias para o cinema. Dos milhões de espectadores de uma adaptação Hollywoodiana, quantos leram o livro que originou o filme? Vamos transpor esse exemplo para o Brasil: dos milhões de espectadores de uma adaptação para a TV, quantos leram o livro que originou a novela, por exemplo?

Segundo Schopenhauer, o ser humano está fadado à infelicidade. Vivemos em uma espécie de ciclo do desejo. Desejamos algo, conquistamos (ou compramos) e temos um breve momento de êxtase. Mas o êxtase é interrompido pelo tédio. Cansamos daquilo. O que conta é a conquista, não o fato de possuir. Então deixamos o que foi conquistado (ou comprado) de lado para desejar outra coisa. A necessidade de conquista é algo inerente ao ser humano. Ou seja, a indústria publicitária tem “a faca e o queijo na mão”. Basta transformar o consumo em conquista. E assim a roda do consumo gira.

Tenho lido alguns teóricos da comunicação que rejeitam o termo “massa”, justificando esta rejeição através do argumento de que ninguém é igual a ninguém. Que todo ser humano é diferente. Portanto, mesmo os agrupamentos não podem ser classificados como “massa”. Discordo desta afirmativa, pois acredito que uma sociedade passiva e consumista, como a brasileira, pode ser comparada a um rebanho de ovelhas. As ovelhas seriam a “massa”, que é direcionada pelo seu pastor, no caso a Rede Globo, para onde seus interesses políticos e econômicos apontam, sem nem se questionar por que estão indo para a direita ou para a esquerda...

Com a popularização da internet, o documentário "Muito Além do Cidadão Kane" pode ser facilmente encontrado, mesmo sendo proibido. Apenas no Youtube, já foi visto mais de 300 mil vezes. Nos burlam com a censura. Os burlemos usando nossas armas.

Acredito que a passividade do “rebanho de ovelhas” é gerada, em grande parte, pelo desinteresse. Desinteresse em se conhecer, em fugir da mesmice e em aceitar opiniões diferentes. Mas, principalmente, pelo medo de apresentá-las e defendê-las, caso as tenha. "Muito Além do Cidadão Kane" apresenta uma visão pouco conhecida, porém real, do universo das comunicações e da necessidade de sermos cidadãos. 

Por: Mattheus Rocha

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  1. Muito triste este interessante texto que trata de um documentario que expoe feridas tao latentes da nossa sociedade nao ter nenhum comentario.

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